Moro no concelho de Cascais. Aqui à saída do bairro há um mupi (um p? dois p's? - é um expositor envidraçado de rua) com informações da Câmara; esta semana tinha um cartaz apelativo convidando - entrada livre - a um espectáculo de dança contemporânea da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (os sete sonhos, lembram-se?) na Cidadela em Cascais. As francesas já partiram, está uma noite quente e porque não?
Meti-me no comboio, chego quinze minutos antes. Um ajuntamento no portão não augurava nada de bom. De facto, os bilhetes tinham esgotado. Indignação generalizada, algumas pessoas tinham telefonado para o número referido no placard e a resposta fora - vá, a entrada é livre. As pessoas vão e depois não há entradas. Bastaria acrescentar mais uma linha - lugares limitados, entrega de bilhetes a partir das 20.00. Simples e não iria ninguém ao engano.
As reacções foram díspares - argumentar com o porteiro "não posso fazer nada", claro, que outra resposta esperaríamos nós? esperar uns minutos para ver e dar meia volta resmungando a meia voz "não preciso disto para nada" (seria também a minha, seguida de uma carta de reclamação para a edilidade, mas eu hoje estava numa de ser português), chegar dizer boa noite a todos os presentes como se nos alinhássemos fora dos cordões em noite de óscares e entrar por ali dentro (Lili Caneças acompanhada por um moçoilo muito interessante), berrar com o porteiro exigindo-lhe a identificação enquanto de iphone em punho (ah, a ilusão de poder dada por estes gadgets) ameaçava telefonar para o Capucho, himself.
Eu ia-me chegando para o portão a cada desistência ou cunha - alguns iam entrando chamados por pessoas lá de dentro "este senhor vem comigo" confiante numa solução à portuguesa. Que houve. Depois de quase ameaças de pancadaria, algum arrefecimento, brincadeira para desanuviar, apareceu um senhor que nos deixou entrar a todos. Muito simpático e sensato, foi buscar mais cadeiras nem sei onde, pediu aos mais novos para se sentarem no chão e ainda nos foi buscar programas. Um querido.
A peça? Eram três. Gostei muito da primeira Veneno, uma coreografia de Rui Lopes Graça. Muito completa, equilibrada e diversificada. Vivida, sentida pelos intérpretes que ora desesperados a solo ou a pares, ora eufóricos, ora pairando, ora cooperando em sintonia conectam-se e separam-se em energia e sinergia crescente. A segunda, um dueto coreografado por Vasco Wallenkamp não mexeu comigo. Bons bailarinos, coreografia interessante, bons figurinos mas não senti ali nada. Uma interpretação mecânica, técnica, sem paixão. O público adorou, foram muito aplaudidos, terei sido eu mais insensível. A última, Finale muito vivaz, alegre, energia a transbordar por cada poro, bons figurinos também, tudo o que eu gosto também não me aqueceu por aí além. Talvez pela coreografia óbvia, sem surpresas, algo rudimentar.
Uma bela noite, ainda assim, e um espectáculo bem recomendável no seu todo. Repete sábado e domingo, Cidadela de Cascais, 22:00. Entrada livre, é certo, mas convém lá estar às 20:00 para recolher o bilhete. Depois dão uma volta pela vila que é um apetite nestas noites raras sem nortada.