domingo, 6 de julho de 2008

actos com palavras


Fui na quinta feira ver Como fazer coisas com palavras, um solo de Ricardo Araújo Pereira no papel de um filósofo da linguagem. Teria sido um espectáculo engraçado para terem ido com o vosso professor de filosofia, daria com certeza muito combustível nas aulas seguintes. Trata-se de uma conferência sobre as qualidades da palavra (e eu creio que ele não o diz assim) a partir de uma série de conferências dadas por John Austin. As palavras não são apenas declarativas, são também performativas - uma palavra usada muito por ele e sem tradução directa em português. Elas fazem coisas, repete várias vezes o conferencista.

Por exemplo, ao dizer "eu vou fazer(-vos) o dvd do espectáculo" estou a fazer um promessa de um acto que vai acontecer no futuro. Estou a estabelecer uma relação contratual entre mim e vós. Vocês esperam de mim o dito - e elusivo dvd.

Bom, eu não disse vos, disse vou tentar fazer. Mencionei até uma data - 7 de Julho (faltam meia dúzia de horas). Pois. Não é possível, não está pronto.

Words, words, words, cantava exasperada Eliza Doolittle, i'm so sick of words (...) Show me!

Já devo ter passado o limite de idade. Sucedeu-me o mesmo com uma manobra em kayak - o eskimo roll, aquilo que se faz quando se está de cabeça para baixo dentro de um kayak. Uma combinação de 3 movimentos de pagaia mais um golpe de anca e por fim o tronco. O meu irmão somou muitas horas em dias e ocasiões diferentes, eu insisti e insisti até à exaustão e ao enjoo (volta para baixo, volta para cima, são muitas rotações sucessivas, o meu ouvido interno não tinha capacidade de digestão) e não fui capaz. Foi um insucesso muito frustrante, fui persistente, batalhei e mesmo assim não fui capaz de aprender a virar-me para cima sozinha. Não seria só pela beleza da manobra, mais pela autosuficiência em rio e porque é uma trabalheira tirar, de cada vez que nos viramos, o saiote, rebocar o kayak para a margem, esvaziar a água, reentrar, recomeçar. Acordámos, a bem da amizade e da fraternidade, que eu teria já passado o limite de idade.

Aqui, vocês estão mais perto de perceber como se faz. Já nasceram com um rato na mão, encontram soluções que eu nem sonho. E de qualquer modo, o projecto de fazer um dvd seria sempre de todos, qualquer um se pode chegar à frente, eu já disponibilizei os vídeos originais.

A bem da verdade, acrescento que ainda não dediquei o meu tempo todo a isto. Vocês estão de férias mas nós estamos na fase do ano mais trabalhosa. Reuniões dia sim, dia sim, algumas vigilâncias, relatórios uns atrás dos outros e estou ainda a frequentar uma reciclagem de dança.

Em conclusão - amanhã ainda não haverá o meu dvd. Haverá sim, um acerto de contas para quem ainda o não fez. Passem pelo Sr. Braúlio a partir das 11 da manhã que ele terá o dinheiro das últimas receitas. Terão apenas de assinar e levantar a vossa parte.