terça-feira, 10 de junho de 2008

uma apreciação Ao ritmo do Camões

Já vos falei do Paulo. Convidei-o a vir ver a nossa última apresentação (na realidade já o tinha convidado em Abril mas atendeu-me o telefone num país distante), ele veio e emocionou-se. Na sequência, falei-lhe neste blogue, desafiei-o a escrever um texto. A sua resposta:Olá Teresa,decididamente não sei ser simples nem fazer as coisas pela metade.
A culpa é tua e dos alunos que apresentaram o espectáculo...!
Comecei a escrever e a coisa foi saindo. Assim como assim, digo tudo e só lê quem quiser...


"Assisti à vossa apresentação de dança na 4ª feira.
Ao contrário de vocês, não fiquei nada cansado. Mas fiquei com muitas memórias visuais a dançar dentro de mim... e com perguntas do género: "Mas como é que conseguiram fazer uma coisa destas na escola?", "Será que foram contratados no estrangeiro para fazerem de conta que são alunos do Camões?", "Bem, devem ter aulas de dança desde o jardim de infância!?", "Quem terá sido o coreógrafo?", "Deve haver duplos ou gémeos, porque há caras que estão sempre a aparecer em coreografias tão diferentes?!", "E as pilhas, são Duracel?"...

Sem mais perguntas (depois respondem), fiquei também com vontade de fazer alguns (muitos) comentários...

O meu nome é Paulo e tenho 34 anos (ainda que isto nada diga acerca de quem sou). Dou aulas de música, dança e teatro (desde crianças pequeninas a crianças grandes, adultos e curiosos da vida), vou a muitos espectáculos (teatro, dança, música, cinema...), compro livros e CDs, fico nos cafés a falar com amigos sobre tudo e sobre nada... e faço colecção de "momentos de vida bem vividos".

Vocês (os que vi dançar e os que imagino nos bastidores) vão passar a fazer parte da tal colecção de "momentos de vida bem vividos".
Serão um bom exemplo do que é um espectáculo com sucesso a vários níveis: de desafio (grande), de aprendizagem(s), de dinamismo e alegria (que não era só por serem jovens), de qualidade técnica e artística (... com muito trabalho), de empenho (para não desistir perante as dificuldades, sempre tantas!), de gosto em partilhar com o público algo de que gostam (obrigado.).

Foi tudo perfeito? É claro que não; nem poderia ser, porque em Arte estamos sempre à procura de fazer mais e melhor, de ter mais conhecimento, de experimentar outros caminhos...
Mas houve momentos de verdadeira perfeição - nas atitudes em palco; em determinadas sequências coreográficas; na energia com que galvanizavam o público...

Falando do público - há muitas maneiras de ver um espectáculo: através da Emoção (ficamos tristes, alegres, nostálgicos; choramos, rimos, recordamos...), através da Técnica (analisamos a perfeição dos passos, contamos os enganos, observamos se estão todos coordenados, vemos se a postura do corpo está correcta...); através da componente Artística (procuramos a criatividade da coreografia, a atitude na interpretação, a segurança na comunicação, a beleza do gesto...); ou, também, através da Relação Afectiva (nesse caso não importa o que fazem, porque se são o filho, o neto ou a namorada tudo é "deslumbrante" e são os "maiores"; ou, caso contrário, se são o colega antipático ou a ex-namorada, tudo está mal feito e não tem interesse).

Como não vos conhecia, vi o espectáculo na perspectiva das componentes emotivas, técnicas e artísticas. Ao princípio desconfiei (aquele início precisava levar uma "volta"), mas assim que começaram com a primeira coreografia devo confessar que conquistaram a minha atenção - e foram muito melhores que alguns espectáculos que já vi (com bilhetes bem caros!) e que só dá vontade de sair a meio (e a fazer barulho com os pés).

Das emoções que tive não me apetece falar através da internet. Mas posso referir outras questões:
- conseguiram ter um ritmo de entradas e saídas limpo e dinâmico, sem momentos mortos (um espectáculo com momentos mortos é um espectáculo condenado);
- foram bastante criativos na utilização equilibrada e diversificada do espaço e das formações de intérpretes;
- revelaram bom gosto e pesquisa em relação ao guarda-roupa, ao material cénico e à música (ainda que, quanto à música poderiam, de vez em quando, ter variado o estilo, sobretudo na dança moderna);
- excelentes textos!
- demonstraram grande à-vontade nos momentos mais teatrais (sem exagerarem ou irem para soluções muito evidentes e gastas);
- revelaram uma grande segurança na realização de todas as coreografias (enganos deve ter havido, mas não se notaram - excelente atitude a do grupo que se manteve em formação durante os longos momentos em que a música não apareceu);
- conseguiram atingir um elevado nível técnico, sobretudo nas composições de dança moderna ou nas coreografias em grupo;
- excelente no domínio motor/corporal nas danças ritmicamente mais "puxadas" (atenção! em algumas danças sociais têm de encontrar uma postura corporal mais descontraída e realizar os passos mais sincronizados com a música).
- a expressividade na interpretação (sobretudo ao nível do olhar e do toque/contacto corporal) demonstrou uma grande entrega artística e uma intencionalidade trabalhada ao pormenor.

É evidente que tudo isto revela um longo e árduo processo de amadurecimento em relação ao que é (ou pode ser) o mundo da dança (fundamental para o espectáculo final... e também como aprendizagem para a vida).
Sintetizando o que conquistaram e devem evitar esquecer:

- o esforço, o trabalho, o sacrifício, as dores no corpo (e na alma), o medo, a coragem...
- a alegria, o prazer, a descoberta, a entrega, a partilha, a entreajuda...
- a vontade de fazer cada vez mais e melhor, de se superarem (individualmente e em grupo), de não ficarem pelo mais simples...
- a recompensa das palmas, do reconhecimento dos amigos, dos novos amigos (ou mais que isso...), da realização pessoal...
- a dança, a dança, a dança, a dança... vocês e as danças... a vossa dança.

(Caso ainda estejam em frente ao computador...) uma referência final a alguém muito importante para a "vossa dança" - a professora, que certamente não vos deu descanso (mas quem é que vos disse que as grandes obras se fazem a dormir ao sol na praia?...) e que deve estar muito feliz pela forma como concretizaram o vosso projecto no palco.

Na vida encontramos muitas pessoas, mas são poucas aquelas que nos abrem verdadeiramente uma janela sobre o mar sem outro interesse que não seja mostrar a grandiosidade do mar.
Tiveram a sorte de ter alguém que vos abriu uma janela sobre o mar da dança, que vos guiou nas marés da navegação, que cuidou dos ventos e tempestades, que exigiu a construção de um barco bem apetrechado e, muito importante, alguém que não vos deixou ficar na primeira ilha que encontraram e que vos ajudou a escolher o rumo a seguir...

Sei o quanto é difícil tudo o que construíram. Foram muito mais além do que fazer "umas coisas giras" de dança. Foi um trabalho sério, completo.

Para subir ao palco é preciso ter algo para oferecer. E só se consegue dar algo aos outros quando o encontramos/construímos primeiro dentro de nós. Concluindo: souberam merecer o palco.

Acredito que alguns de vocês terão iniciado um caminho (longo) no mundo das artes de palco/bastidores. As carreiras artísticas podem começar assim.

Acredito que muitos outros adquiriram uma capacidade mais profunda de ver, de pensar e de sentir as artes (as da dança e todas as outras). Serão um público melhor.

Esta aventura está ganha. Venha o Verão, o sol, a praia e muita dança nas noites quentes.
Até ao próximo desafio..."

Paulo Ferreira Rodrigues