Não obstante teria sido interessante, vocês já as conheciam do dança, Camões!.

O ano passado participei, com a minha mãe, numa visita guiada à Cova da Moura. Nesta, percorreu-se todo o bairro, almoçou-se num restaurante, passou-se pelos locais mais significativos do ponto de vista social e histórico. Uma visita impressionante pelos preconceitos que derrubou e pela admiração com que ficámos por todas aquelas mulheres que lutam, sem quebrantar, todos os dias por uma vida melhor para si e os seus filhos.
No decorrer da visita conheci a Sysa, uma das guias. Vinte e poucos anos, calma, expressiva, orgulhosa do trabalho desenvolvido pela Associação Moinho da Juventude, falou, entre outras coisas, do grupo de dança (que vimos numa breve actuação para um outro grupo de visitantes). Convidei-a para vir ao Camões dar um workshop de danças africanas aos alunos de AP dança. Ela simpática, generosa, acedeu de pronto. A sessão correu tão bem (havia, entre os alunos, um grupo de auto-proclamados renitentes que se renderam mal a sessão começou) que as convidámos logo para participarem no nosso projecto de espectáculo. Elas vieram, como vocês se devem lembrar.
Hoje, estava cheia de expectativas pois tinha lido, há uns tempos, no jornal que este projecto - dança contemporânea com as raparigas da Cova da Moura - encontrava-se em gestação.
O início assustou, muito lento, muito "contemporâneo", muito gélido. São bons começos.
Logo, logo, há uma faísca, um despoletar de energia que se propaga e auto-alimenta. O acompanhamento musical, batuque africano mas não o tradicional, um bem dos nossos dias, adequava-se em absoluto às intérpretes. Estas, em actuações a solo (por vezes vários solos justapostos) ou em sincronismos efémeros, dançavam as "suas" danças numa recriação nascida do diálogo com a criadora Filipa Francisco.
Uma peça muito interessante a evocar quer as vastas planícies, quer as estreitas vielas urbanas, a força do grupo e a fragilidade do indivíduo.
A apontar apenas - não percebi e não gostei, quase sempre é assim - umas animações singelas que por vezes corriam em fundo.
Terminava com um vídeo que ilustrava o processo de criação da peça. Estava muito bom, sobretudo para quem tem da Cova da Moura a ideia que eu tinha antes de lá ter ido - um antro de banditagem, droga, etc. Não é nada disso, bem pelo contrário.
Achei graça, este ano tinha sido também uma ideia que gostaria de ter concretizado. Já o vi nos saraus das minhas filhas e acho que fica sempre bem - passar fotos em slide do decorrer dos trabalhos, das aulas, dos treinos, ensaios, tudo isso. No nosso caso, a ideia teria sido, passá-los no intervalo. Fica para o ano, vamos melhorando um pouco de cada vez.
E, é claro, estive todo o tempo a tomar notas mentais "que bem que isto resulta", e fazer um aquecimento assim e fazer este exercício, e este, e aquele.