Mais tarde, já nos vinte anos, recebemos em casa um jovem americano ao abrigo daqueles programas de intercâmbio AFS. Veio apenas passar o verão, era o programa curto. Tinha muita vontade de aprender português, ao fim de umas semanas de cá estar perguntou-nos que livros poderia ler de modo a praticar a língua. Lembrei-me do Guilherme, seriam os livros perfeitos. Vocabulário simples, histórias curtas e independentes, perfeito para uma iniciação. E sobretudo, o humor corrosivo, a inteligência de escrita, do autor.
O Guilherme é um miúdo de onze anos, energia inquebrantável, imaginação prodigiosa, fé inabalável nas suas capacidades. Mete-se em todos os sarilhos possíveis e trapalhadas inimagináveis, sai-se miraculosamente bem de alguns deles, dos restantes fica a pagar em semanadas perpetuamente congeladas. Tem um cão, o Trapalhão, como qualquer cão que se preze, reflexo fiel do seu dono. São umas histórias deliciosas que não (me) cansam nunca.Com o Kent, o miúdo americano, foi-se parte da minha (e do meu irmão) colecção. Entretanto casei, filhos, o costume. Quando elas estavam a chegar à idade fui a casa da minha mãe repescar os livros que por lá ainda estavam. Anitas, Os cinco, As gémeas, O colégio das 4 torres e outros do género. E o Guilherme, claro. Para meu espanto, as minhas filhas com excepção da mais pequena nunca ligaram ao Guilherme. Voltei a relê-lo e a rir-me de novo como da primeira vez. Andei pelos alfarrabistas e feiras de rua sempre tentando recuperar a minha colecção de Guilhermes, não tive sorte, consegui comprar apenas um.
Há uns três anos num jantar de amigos de amigos, vindo do nada aparece o Guilherme à baila. Foi uma situação estranha, eu e a Ana rindo perdidamente, lágrimas nos olhos e tudo, em conjunto com um casal um pedaço mais velho que eu, evocando esta e aquela história do Guilherme. Um pouco aborrecido para os restantes mas foi por uma causa meritória. Sabe sempre tão bem encontrar umas almas gémeas numa esquina do nosso percurso, ainda que almas aqui seja claramente exagerado. Mas tudo no Guilherme o é, estávamos em consonância. Lá lhes contei dos meus esforços infrutíferos de recuperar os livros.
Esta semana, vindo do nada de novo, tenho um aviso de recepção para ir aos correios. A multa do irs já?, costuma ser só no ano seguinte. Era uma encomenda dos dez primeiros livros. Em Inglaterra continuam a editá-los, foi um presente caído de lá, uma amiga longínqua e generosa.
Somos o que comemos, o que ouvimos, o que lemos, somos tudo isso. Eu recomendo o Guilherme, o seu olhar fresco perante a vida, as suas vicissitudes, a batalha permanente perante a incompreensão dos adultos, a sua capacidade de superação de todos os obstáculos ou pelo menos de jamais se deixar abater por eles, é fabuloso.
Fiz uma busca, há uns exemplares disponíveis pelas várias bibliotecas municipais. E aposto que nas casas dos avós haverá boa probabilidade de se encontrar algum perdido. Depois de os esgotarem, ofereço-me para partilhar os meus. Acreditem que vale a pena. Enxugando as lágrimas, interrogava-me perante esses amigos de amigos como era possível que livros para miúdos mantivessem o seu fascínio em pessoas crescidas (estávamos entre os 40 e os 50). Responderam-me que ele escrevia com a inteligência e o sentido de humor como se escrevesse para adultos. Não menorizava os jovens de modo nenhum, a única concessão que fazia era no vocabulário mais restrito.
A centelha de humor que por vezes ocorre numa dança séria - e agora lembro-me do Afonso - começa, quem sabe?, num livro assim.