Um pouco de história:
Quando sugeri, no ano passado e de novo este ano, a realização de um workshop dirigido à comunidade escolar, tinha sobretudo em mente o bal moderne. Este é o nome feliz - porque é mesmo disso que se trata, um baile moderno - encontrado pela companhia de dança Roses, da Bélgica. Tive a sorte de participar num em 2006 na Culturgeste, gostei imenso do formato, falei-lhes nisso.
A dança era demonstrada, depois ensinada em tranches e finalmente dançada pelos presentes. Os "formadores" estavam bem visíveis no cimo do palco, cá em baixo, entre nós, inúmeros monitores com camisolas amarelas ;-) ajudavam-nos a encontrar o ritmo, a acção, a perceber o detalhe. As coreografias duravam o tempo de uma música - cerca de 3 minutos, mas na realidade repetiam-se duas a três vezes, isto é, tínhamos de aprender aproximadamente um minuto (um pouco ao jeito das danças populares com 3,4 ou 5 figuras que se repetem até final da música). O bal durava 4 horas, sendo que as 3 primeiras eram dedicados a aprender 3 danças diferentes e na quarta hora dançavam-se as três ao improviso.
No bal em que eu participei, as três danças eram muito diferentes. A primeira, dança em linha e colunas, tinha uma organização coreográfica a fazer lembrar a Escócia. A segunda, espectacular! de inspiração africana/tribal, em dupla roda. A terceira, a que gostei mais in the moonlight shadow (depois foi a Serralves, encontrei isto no youtube um dia que pesquisava o bal moderne) era uma dança de pares(se bem que o par só se juntasse mesmo no final).
Quando falei nisto às turmas, sempre soube que criar uma coreografia de propósito para o workshop seria um projecto demasiado ambicioso, quiçá irrealizável. Por isso perguntei, no ano passado e neste também, que danças gostariam os alunos de ensinar. O ano passado, a Sara Faria esboçou uma coreografia de pares muito interessante mas a turma não quis acompanhá-la e o projecto seguiu outro caminho.
Este ano, numa das turmas, por felicidade tinha-se encontrado aquele que é, quanto a mim, o modelo ideal - uma coreografia original com música apelativa (quem é que consegue resistir aos bons anos 60?). Uma coreografia alegre, a pares, com dificuldade q.b. para ser desafiante, com variedade de acções motoras, com interacção entre os dançarinos.
Ia ser um sucesso de um workshop, só podia.
Mas, a pretexto de se perder o impacto para o espectáculo do palco - como se isso fosse possível, as duas turmas iriam dançar 50 segundos e que fosse a coreografia inteira - os alunos não quiseram. Apreciamos melhor o que conhecemos bem. Isto é válido para todos os campos do conhecimento, para os sentidos, para as papilas gustativas, para as artes, para tudo, creio.
Iriam, se fossem assistir ao espectáculo, ver a vossa peça com mais atenção, com mais entusiasmo, com maior sentido de pertença, de relação - eu já fiz aquilo, aquele pedaço.
Uma oportunidade perdida também, a de partilharem com os outros colegas das AP's um belíssimo trabalho, cem por cento criação vossa.
Mas não.
Alguns alunos não quiseram. De modo que estou aqui neste assombro, tentando perceber e não entendendo como é que a alegria, a generosidade, o despojamento saem, uma vez mais, derrotados.
"A democracia são 3 lobos e 1 ovelha decidirem o que vão jantar".
Pois. Hoje sou uma ovelha.