“O solícito funcionário matutava à procura de uma maneira para se livrar de Prullàs sem alterar a sua boa educação; como não a encontrou, teve de aceitar a presença do outro com evidente embaraço. Através da porta que comunicava com o gabinete do chefe ouvia-se de quando em quando a voz forte da importante figura, seguida de períodos em silêncio.
- A visita já entrou há muito tempo? – perguntou Prullàs.
- Não sei – respondeu Siguenza – ausentei-me em várias ocasiões e não vi entrar ninguém; até pode ser que não haja nenhuma visita.
- Dom Lorenzo Verdugones tem o hábito de falar sozinho aos gritos? – perguntou Prullàs.
O solícito funcionário moveu a cabeça.
- Por razões do cargo que desempenha – explicou – dom Lorenzo tem de pronunciar muitos discursos; dom Lorenzo aborrece-se com a retórica oca e procura dar a todas as suas intervenções públicas um sólido conteúdo dogmático; isso obriga-o a uma constante e árdua preparação.
- Já percebi – disse Prullàs – e agora deve ser um desses casos.
- Não sei – sublinhou o outro – pode ser que esteja com uma visita.”
In, Uma comédia ligeira, de Eduardo Mendonza
No domingo pensei colocar aqui este pedaço do livro. Achei graça, andei lendo o livro no fds, de repente dou com isto, vinha mesmo a propósito. Hesitei, acabei não o fazendo. Não é um grande livro para começar (aliás, neste pedacito quase dá para perceber). Depois, parece que estou sempre a bater no ceguinho, passe a expressão idiota. Sempre a insistir no mesmo.
Entretanto, os acontecimentos de hoje desanimaram-me de tal ordem que vim todo o caminho para casa a remoer num post. Iniciei vários, na minha cabeça. Com citações iniciais, sem citações iniciais, lamechas, assépticos, amargos, neutros, tristeza profunda, melancolia a querer ser resignada.
Lá iremos, optei por este. Que com boa probabilidade não constituirá o topo das audiências. Não importa, são os altos e baixos. Alem de que um blogue, mesmo um blogue como este, tem um cariz muito pessoal sendo um belíssimo veículo catártico. E depois, lá iremos como disse.
Nota: no caso hipotético de alguém ter ficado curioso, dom Lorenzo estava de facto com uma visita e não treinando a peroração.
Nota dois: e volto a insistir – ensinem a rumba, o jive, o cha cha cha aos vossos pais, avós (aos avós talvez seja melhor passarem o jive), irmãos, primos. Verão como as dúvidas aparecerão e depois, na sua resolução, substituídas por novas e insuspeitadas competências.