Explicando a foto: este é o nosso caiaque (meu e da minha filha), o rio é o Guadiana, a ocasião - uma expedição de dois dias nesta passagem de ano para 2008. O grupo, aparte o meu irmão, era composto de pessoas com reduzida experiência, o açude que se vê na foto foi passado "portajando". Quando os rápidos excedem a capacidade técnica dos expedicionários, há dois processos para o fazer - ou levando o caiaque por terra ou, como nesta, levando por água mas sem pessoas. Amarra-se uma corda comprida e deixa-se a corrente fazer o trabalho. Agarra-se do outro lado, leva-se para a margem e já está. Este processo é mais rápido e menos cansativo - os caiaques levavam todo o equipamento para a pernoita mais os mantimentos para dois dias, estavam pesados.
O nosso caiaque foi o último, o meu irmão que tinha conduzido a manobra até então, passou-a para nós. A falta de experiência conduziu a este desastre; a corda deve ser mantida comprida para o caiaque poder fluir livremente com a água e os seus turbilhões. Aqui, isso não sucedeu, a arreata - se assim se pode dizer - foi mantida demasiado curta, o caiaque perdeu a capacidade de ajuste, a água entrou por um lado, a carga pesada ajudou, é o que se vê. Foi aborrecido, ficámos com os saco cama e os colchões encharcados, mais os sapatos suplentes da Vera. A noite gélida foi passada com os pés enfiados em sacos de plástico e quando nos fomos deitar não pudemos usar os colchões. Os sacos cama, felizmente eram (e são) de bom material, mesmo molhados aquecem.
Conto isto porquê?
Porque passei a noite a receber relatórios, a abrir para confirmar a sua legilibilidade, a fechá-los de pronto, a responder acusando a sua recepção. Ainda não li nenhum, será tarefa para amanhã, domingo e a próxima semana.
O dilema, que não o é propriamente, é digamos uma dificuldade, é ser capaz de manter a corda na justa medida. Não a apertar demasiado estrangulando o redactor, não a soltar por completo deixando o caiaque ir na deriva.
Ler e avaliar bons relatórios não custa nada, é um prazer até. Ver os vossos pontos de vista, as vossas abordagens, as vossas ideias - algumas até que nunca nos teriam passado pela cabeça. É um deslumbre, dispõe-nos bem com a profissão (desgastada), com o mundo que aí vem, com o futuro. O problema são os outros, alguns dos outros. Aqueles dos outros que nos parece terem feito um esforço mas o resultado estar ainda longe do que se pretende. Como eu, por exemplo, nos meus esforços de fazer a linha do dança e balança, de dar à anca com a Ermelinda e suas africanas.
Volta e meia recebo daqueles emails nostálgicos que os vossos pais também devem receber, sobre o nosso tempo assim e assado. Não tenho muita pachorra, geralmente apago e nem acabo de ler. Há uns poucos de meses recebi um que levei até ao fim, o início deve ter sido cativante. Referia-se aos adolescentes de hoje e dizia algo como
"o mundo está-se nas tintas para a tua auto-estima". Gostei desta ideia. Andamos - nós professores - sempre com pezinhos de lã, comentando e apreciando com muito cuidado para não ferir as susceptibilidades dos alunos. O reforço positivo e todas essas teorias que levadas ao extremo conduziram àquilo que sabemos - os últimos lugares nas tabelas dos países desenvolvidos em testes internacionais de competência linguística e matemática.
Abreviando, não me estou nas tintas para a vossa auto-estima mas não a vou afagar sem motivos sólidos. Se os trabalhos não estiverem bons, têm mais é que trabalhar para os melhorar.
Se tiver falta de sensibilidade, espero conseguir compensar com o bom senso. Se faltarem ambas, façam de conta que não estão em Portugal e que os assuntos profissionais são separados dos afectivos. A minha amiga Maria João esteve quatro anos em Manchester, não creio que faça um balanço muito positivo da experiência mas lembro-me bem do seu maravilhamento perante a capacidade dos ingleses se insultarem sem caridade das 9 às 5 e de terminado o trabalho, irem às 6 para o pub beber umas cervejas em conjunto, dar umas gargalhadas, falar em voz alta, essas coisas. Separavam bem o trabalho da amizade. Ou, no mínimo, do convívio.