segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A educação dos sentidos

No sábado à tarde (no meio dos relatórios daquilo que sabemos) atendo o telefone. Era o meu amigo Paulo “queres ir amanhã à Ópera (assim com letra grande)? Tenho um bilhete a sobrar-me, queres ir? “quero, claro. Ver o Rigoletto, não é?” Não é que eu perceba de ópera (agora com letra pequena, em sinal da minha pequenez ignorante, deveria talvez ser ao contrário) mas tinha visto o cartaz. Tive algumas breves e felizes experiências há uns bons anos atrás, ficou-me o gosto, a atenção. Falta sempre o “tempo” que a Ópera é para gente rica. Entusiasmada, ainda por cima o Paulo é professor de música, tem sempre mais graça ir com alguém informado, pensei, a vida pode ser bem gira. Não há como um presente inesperado para nos dispor bem.

Adiante. Sentávamo-nos nos nossos belos lugares na plateia (o mecenas do Paulo é entidade generosa) e atrás de nós ouvem-se umas vozes educadas a anteverem a performance. Agudos para cá, pianíssimos para lá, é vocabulário e conceitos que não domino. Percebi, no entanto, que as espectadoras tinham lido as críticas - a de domingo, era a última récita – vinham já com uma opinião, a do crítico.

Pensei para comigo – a mim tanto fará, não tenho qualquer discernimento musical, esta poderá ser uma péssima actuação, nunca o saberei por mim. Constatá-lo não me desanimou, a ópera é um espectáculo total – tem canto, música, teatro, por vezes tem dança, poderei sempre apreciar o resto.

E, de facto, assim foi. Adorei os cenários, o “barroquismo” dos adereços, a iluminação; a mudança dos cenários feita à nossa vista, os artifícios despidos de algumas soluções. Emocionei-me com alguns dos duetos e se a encenação no seu conjunto não foi brilhante - o final frouxo, depois de uma tensão crescente, foi decepcionante, ainda assim agradeci de todo o coração ao Paulo por se ter lembrado de uma amiga distante.

Foi engraçado também porque findo o espectáculo, me lembrei uma vez mais do meu/nosso problema – a dificuldade da avaliação de um objecto artístico. E uma questão que lhe está intimamente ligada – quanto mais educados mais exigentes nos tornamos.

O que só pode ser bom ☺